Notícias de Trás-os-Montes e Alto Douro

Orgão da Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro de Lisboa

Archive for Maio, 2007

À MEMÓRIA DE CONSTANTINO, TRASMONTANO E REI DOS FLORISTAS – 2ª Parte*

Posted by ntmad em 5 05 2007

Constantino, sem perder a emoção que aquela felicitação representava, sentiu que podia dar novo salto na profissão e, sem dar a conhecer os seus desejos, começou a fazer planos à vida, sem esquecer que ali o Sr. Flamet seria sempre o mestre e ele nuca passaria do garçon-aprendiz, um empregado, confinado ao salário da semana, que mal daria para viver.

 

Certo dia, pela manhã, verificou que Mestre Flamet, a um cliente mais habitual, alto, magro, sempre vestido a preceito, sapatos envernizados, gravatas a condizer com a camisa e o facto, tratava amavelmente por Sr. Isidore Culot e, com cerimoniosa atenção, oferecia o Sr. Constantin para lhe fazer, na hora, mais uma perfumada camélia branca.

 

Constantino, feliz por servir tão ilustre cliente e antevendo um potencial homem de negócios capaz de o ajudar, de imediato deitou mãos à obra e, num ápice, apresentou-lhe a mais perfumada e fresca camélia que siderou o Sr. Isidore.

Espantado com a elegância das pétalas, o perfume, a arte, a rapidez, com que viu aparecer a camélia, exclamou incontidos elogios que o Sr. Flamet nunca ouvira.

Cenas destas se repetiram até que um dia, já em conversa a sós com o nosso Constantino, o Sr. Isidore, entre dentes, lá lhe disse:

– Sr. Constantin está na hora de ser alguém, de se estabelecer por sua conta.

Constantino, sem pestanejar, de pronto lhe respondeu:

– Sr. Isidore, isso é bom de dizer, mas, e o dinheiro para montar uma oficina?

Homem, não hesite, faça-se à vida, descubra uma loja central que o resto fica comigo.

O nosso Constantino, oito dias depois, anunciava ao Sr. Flamet o seu propósito de se despedir ao mesmo tempo que lhe agradecia as oportunidades que lhe dera.

O Sr. Flamet, chocado com a notícia, balbuciou-lhe o aumento de ordenado, melhores instalações e condições de trabalho, casa por conta do patrão, enfim uma assinalável melhoria.

Constantino, decidido, repetiu os agradecimentos e anunciou-lhe que se ia estabelecer, por conta própria, pois ali não passaria de um eterno aprendiz.

Lamentando o sucedido mas compreendendo a ambição de Constantino acabou o Sr. Flamet por agradecer a atenção e o carinho que recebera e desejou-lhe a melhor sorte.

E é assim que, em 1837, o nosso Constantino aparece estabelecido em Paris, no n.º 59 da Bourbon-Villeneuve, onde permaneceu até 1844.

 

Paris rendeu-se à arte de Constantino, a sua fama ultrapassou fronteiras, as casa reais encomendavam-lhe as flores e, pelas ruas, frequente era verem-se passar os ramos de flores de Constantino ou as camélias nas lapelas dos casacos que passara a ser grande moda.

A oficina tornava-se pequena para tanta encomenda e os empregados já não eram capazes de satisfazer as encomendas.

 

Em 1844, após o desgraçado tufão que arrasou a ilha de Guadalupe, nas Antilhas, sob administração francesa, A rainha Maria Amélia, perante tal desgraça, resolveu lançar uma quermesse com cujas ofertas seriam organizados leilões para angariar fundos para os sobreviventes.

Entre as muitas ofertas destacavam-se as grinaldas e os ramos de Flores feitos por Constantino para além de outras obras de arte com que fidalgos e burgueses ajudaram a por em pé tal iniciativa.

 

As rosas, os amores-perfeitos, as camélias, entrelaçadas em ramos, ganhavam, com as respectivas decorações, uma beleza e brilho tão impressionantes que as senhoras, sem olhar a preços, as disputavam no animado leilão.

 Todas queriam as flores e os perfumes de Constantino e uma delas, sem querer, retirou uma pétala duma flor e, levando-a ao nariz e parecendo-lhe natural, extasiada, gritou:

Maravilha, maravilha! Viva Constantino, Viva o Rei dos Floristas ao que todos os presentes em uníssono repetidamente aplaudiram.

Correu célere a notícia e, no dia seguinte, pela manhã, os jornais do dia anunciavam em grandes parangonas o acontecimento.

A rainha Maria Amélia, ante tão grande ovação, encantada pelos ramos de flores que antes vira e tocara, acabou, nesse mesmo ano de 1864, por enviar à loja do nosso Constantino o mensageiro habitual para encomendar a coroa de flores de laranjeira que a princesa Dona Clementina haveria de levar no dia do casamento.

Constantino, emocionado pela opção da Rainha e antevendo o que isso representava, de imediato respondeu ao mensageiro que no dia seguinte seria ele próprio que levaria duas coroas para sua alteza escolher a que mais gostasse.

Os empregados, em uníssono, grande ovação prestaram a Constantino e mais uma vez exclamaram: Mestre, mestre, grande mestre, o Rei dos Floristas

Lequerel, também sócio e contabilista da sociedade, depressa se abeirou de Constantino e, sem mais, ripostou-lhe:

– Mestre, uma rainha só pode encomendar flores a um rei, ao nosso Rei dos Floristas!

Bom, bom, meninos, vamos ao trabalho, amanhã começa um novo dia, assim o creio.

 

No dia seguinte, como prometera, apresentou-se Constantino no palácio e, conhecedora da sua presença, decidiu a rainha receber ela própria o grande Constantino.

Ante tão prestigiante atenção, Constantino, mal viu a rainha entrar no salão, depressa se abeirou e, de joelho em terra, como era hábito nesses tempos, entregou à rainha Maria Amélia duas delicadas grinaldas de flores e botões de laranjeira, uma, artificial, feita pelas suas mãos, a outra de flores naturais igualmente feita por si.

Mas, Mestre Constantin, só se encomendou um ramo de flores!

– Majestade, decidi fazer duas coroas para que possa escolher e, se me for permitido, deixarei as duas e amanhã virei buscar a que for rejeitada.

No dia seguinte apresentou-se o bom Constantino no palácio real e, mais uma vez recebido pela Rainha que, sem rodeios, exclamou:

Sr. Constantino, ficaremos com as duas coroas, porque as vossas flores são tal qual as naturais. Uma única diferença as separa, as naturais murcham, as vossas não. Magnifico, magnifico!

 

Ante tão prestigiante escolha os empregados da loja ficaram, mais um vez encantados e, sem olhar a meios, depressa puseram a circular a notícia que, para admiração dos parisienses e estrangeiros, foi primeira página dos principais jornais diários.

 

O Sr. Isidore Culot, no dia seguinte, emocionado, entra a correr na oficina e, de olhos a saltarem-lhe da cara, atira para cima da mesa de Constantino um molho de jornais e exclama:

Mestre Constantino, veja, veja! Toda a imprensa diária traz, em grandes parangonas, a notícia e, mais, reproduz as palavras da Rainha acerca das flores que o mestre faz, dizem até que a fama do mestre já chegou à América e que os americanos ricos querem comprar toda a produção.

 

Constantino, ante tão promissora notícia, decide de imediato dar mais um passo e, sem se emocionar, responde-lhe:

– Sr. Culot, apesar de termos já trinta empregados, esta loja não responde ás necessidades, é preciso encontrar outro espaço que garanta melhores condições de trabalho e sobretudo que tenha boas montras e tornem as nossas flores mais visíveis. Vi uma que me satisfaz na Rua de Santo Agostinho, há dinheiro, deve-se investir. É preciso remodelar e fazer novas flores

– Mas, mestre, como responderão os empregados e os fornecedores, o que hoje é bom amanhã poderá não o ser, não será melhor esperar mais um pouco?

– Não Sr. Culot, os empregados responderão bem, aos fornecedores paga-se o que se lhe deve e partiremos para uma nova etapa. Mas, o Sr. Culot parece não acreditar.

 – Olhe, vem a propósito, ando há um bom par de dias para lhe colocar uma questão, propor-lhe a compra da sua quota.

 – Repare o Sr. não vem aqui, de flores nada percebe, também já tem alguma idade, proponho-lhe ficar com a sua quota, dou-lhe os lucros apurados mais o dobro do capital que investiu. Que me diz?

– Mas, mestre Constantino, agora que o negócio está bom é que o Sr. quer pôr-me na rua? Haja moral, que ingratidão!

– Não Sr. Culot, não é o dinheiro, o Sr. não me conhece, nem conhece os artistas, não me compreende, jamais perdoaria a mim mesmo se esta minha opção fosse desencadeada por dinheiro. Repare, eu sou um artista como muitas provas já dei, e, felizmente, bem sucedidas. Preciso de liberdade para me inspirar e criar, preciso de olhar, ver, observar, fazer experiências, quero viajar, conhecer novas tintas, novos perfumes, novas essências e para isso não posso ter limitações. Preciso de independência Sr. Culot e acredite que, suceda o que suceder, estarei eternamente grato ao seu gesto e à sua ajuda.

E, se fizesse todo este meu trabalho e criação, mesmo com o seu consentimento, estaria sempre a pensar que estava a gastar o seu dinheiro. Ora, pelas minhas aparentes loucuras e criativas extravagancias só eu posso responder. Faço-lhe esta proposta com grande respeito e consideração por si! Pense bem Sr. Culot, não me julgue mal!

– Além do mais, vem aí a exposição de Paris, todos os artistas vão estar presentes e o mundo inteiro vai estar de olhos postos aqui. E, com tempo, gostava de ir em busca de novas experiências, novas tonalidades, outra policromia, tenho de surpreender tudo e todos, quero criar, quero ter a admiração de todos, quero projectar o meu ser, o meu País, quero a glória, percebe Sr. Culot?

O Sr. Culot, impressionado com a velocidade da resposta assim como a tranquilidade e encanto com a pose que Constantino assumia, ponderando um pouco, e dizendo que sim, justificou-se:

– Mestre, estou com setenta anos, estou bem de vida, de flores nada percebo e apostei em si por que via que, na casa do Sr. Flamet, andava silencioso e triste. Eu sabia que o senhor era um artista e não gosto de ver os artistas tristes, como que atrofiados. A arte é sublime, divina, deve ser apoiada! Olhe, boa sorte, prepare a escritura e diga-me qual o notário e a hora a que lá devo estar.

 

Constantino, feliz, com os olhos a faiscar e saltarem-lhe das órbitas, de imediato disparou para o Sr. Lequerel!

– Sr. Lequerel trate de arranjar um notário que amanhã, ou no dia seguinte, faça a escritura de aquisição da posição do Sr. Culot, faça as contas dos lucros do ano, mais o dobro do valor da quota, preencha um cheque no valor dessas importâncias a favor do Sr. Culot.

 

E foi assim que, oito dias depois, de armas e bagagens, o nosso bom Constantino com os seus trinta empregados se instalou no n.º 37 da Rua de Santo Agostinho onde, como veremos, no número seguinte, novos êxitos alcançou.

 

* Clique aqui para ler a 1ª parte deste artigo

Clique aqui para ler a 3ª parte deste artigo

Anúncios

Posted in A Nossa Gente | Leave a Comment »