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À MEMÓRIA DE CONSTANTINO, TRASMONTANO E REI DOS FLORISTAS ! – 3ª Parte*

Posted by ntmad em 14 06 2007

 

No dia seguinte apresentou-se o bom Constantino no palácio real e, mais uma vez recebido pela Rainha que, sem rodeios, exclamou:

Sr. Constantino, ficaremos com as duas coroas, porque as vossas flores são tal qual as naturais. Uma única diferença as separa, as naturais murcham, as vossas não. Magnifico, magnifico!

 

Ante tão prestigiante escolha os empregados da loja ficaram, mais um vez encantados e, sem olhar a meios, depressa puseram a circular a notícia que, para admiração dos parisienses e estrangeiros, foi primeira página dos principais jornais diários.

 

O Sr. Isidore Culot, no dia seguinte, emocionado, entra a correr na oficina e, de olhos a saltarem-lhe da cara, atira para cima da mesa de Constantino um molho de jornais e exclama:

Mestre Constantino, veja, veja! Toda a imprensa diária traz, em grandes parangonas, a notícia e, mais, reproduz as palavras da Rainha acerca das flores que o mestre faz, dizem até que a fama do mestre já chegou à América e que os americanos ricos querem comprar toda a produção.

 

Constantino, ante tão promissora notícia, decide de imediato dar mais um passo e, sem se emocionar, responde-lhe:

– Sr. Culot, apesar de termos já trinta empregados, esta loja não responde ás necessidades, é preciso encontrar outro espaço que garanta melhores condições de trabalho e sobretudo que tenha boas montras e tornem as nossas flores mais visíveis. Vi uma que me satisfaz na Rua de Santo Agostinho, há dinheiro, deve-se investir. É preciso remodelar e fazer novas flores

– Mas, mestre, como responderão os empregados e os fornecedores, o que hoje é bom amanhã poderá não o ser, não será melhor esperar mais um pouco?

– Não Sr. Culot, os empregados responderão bem, aos fornecedores paga-se o que se lhe deve e partiremos para uma nova etapa. Mas, o Sr. Culot parece não acreditar.

 – Olhe, vem a propósito, ando há um bom par de dias para lhe colocar uma questão, propor-lhe a compra da sua quota.

 – Repare o Sr. não vem aqui, de flores nada percebe, também já tem alguma idade, proponho-lhe ficar com a sua quota, dou-lhe os lucros apurados mais o dobro do capital que investiu. Que me diz?

– Mas, mestre Constantino, agora que o negócio está bom é que o Sr. quer pôr-me na rua? Haja moral, que ingratidão!

– Não Sr. Culot, não é o dinheiro, o Sr. não me conhece, nem conhece os artistas, não me compreende, jamais perdoaria a mim mesmo se esta minha opção fosse desencadeada por dinheiro. Repare, eu sou um artista como muitas provas já dei, e, felizmente, bem sucedidas. Preciso de liberdade para me inspirar e criar, preciso de olhar, ver, observar, fazer experiências, quero viajar, conhecer novas tintas, novos perfumes, novas essências e para isso não posso ter limitações. Preciso de independência Sr. Culot e acredite que, suceda o que suceder, estarei eternamente grato ao seu gesto e à sua ajuda.

E, se fizesse todo este meu trabalho e criação, mesmo com o seu consentimento, estaria sempre a pensar que estava a gastar o seu dinheiro. Ora, pelas minhas aparentes loucuras e criativas extravagancias só eu posso responder. Faço-lhe esta proposta com grande respeito e consideração por si! Pense bem Sr. Culot, não me julgue mal!

– Além do mais, vem aí a exposição de Paris, todos os artistas vão estar presentes e o mundo inteiro vai estar de olhos postos aqui. E, com tempo, gostava de ir em busca de novas experiências, novas tonalidades, outra policromia, tenho de surpreender tudo e todos, quero criar, quero ter a admiração de todos, quero projectar o meu ser, o meu País, quero a glória, percebe Sr. Culot?

O Sr. Culot, impressionado com a velocidade da resposta assim como a tranquilidade e encanto com a pose que Constantino assumia, ponderando um pouco, e dizendo que sim, justificou-se:

– Mestre, estou com setenta anos, estou bem de vida, de flores nada percebo e apostei em si por que via que, na casa do Sr. Flamet, andava silencioso e triste. Eu sabia que o senhor era um artista e não gosto de ver os artistas tristes, como que atrofiados. A arte é sublime, divina, deve ser apoiada! Olhe, boa sorte, prepare a escritura e diga-me qual o notário e a hora a que lá devo estar.

 

Constantino, feliz, com os olhos a faiscar e saltarem-lhe das órbitas, de imediato disparou para o Sr. Lequerel!

– Sr. Lequerel trate de arranjar um notário que amanhã, ou no dia seguinte, faça a escritura de aquisição da posição do Sr. Culot, faça as contas dos lucros do ano, mais o dobro do valor da quota, preencha um cheque no valor dessas importâncias a favor do Sr. Culot.

 

E foi assim que, oito dias depois, de armas e bagagens, o nosso bom Constantino com os seus trinta empregados se instalou no n.º 37 da Rua de St. Agustin onde, como veremos, no número seguinte, novos êxitos alcançou.

Instalados no n.º 37 da Rua de St. Agustin a azáfama do trabalho não parava pois, pouco antes, ainda na anterior loja, Constantino havia decidido concorrer à Exposição de Paris que nesse ano se realizou nos Campos Elíseos.

Constantino, mais uma vez, surpreendeu tudo e todos, o seu stand foi dos mais visitados e as suas obras foram enaltecidas, com primeiras páginas de jornais, tal era a beleza, encanto e perfume que transmitiu aos seus arranjos florais.

A excepcional qualidade do seu trabalho foi reconhecida por todos e foi assim que, no último dia do certame, viu o seu nome ser pronunciado pelo Rei que o declarou vencedor do certame em arte floral.

Com este prémio os aplausos foram mais que muitos e até o Sr. Flamet, esquecendo a azedume da saída, veio cumprimentar Constantino prestando-lhe sentido elogio.

Com este prémio o reconhecimento de Constantino foi geral, ultrapassou fronteiras, fez crescer o seu negócio cujas encomendas eram agora satisfeitas por 40 empregados.

Constantino, porém, não se deslumbrou e, acicatado pelo desejo de inovar e conhecer novos perfumes, decide uma viagem a Inglaterra e aos Pirinéus para estudar a flora e botânica destas regiões, que era rica. Confiada a loja aos seus empregados, sempre dirigidos pelo seu amigo Lequerel, Constantino embarcou para Inglaterra e regressou pelos Pirinéus na descida dos quais, em Tercis-les-Bains, sofreu uma queda quando, sentindo-se ainda rapaz e a lembrar-se da sua terra, subiu a um penhasco para apanhar uma flor que tinha um azul que nunca antes vira.

Nesta vila, reteve-o a doença uns tempos, e, a conselho dos naturais, descobre as águas termais que o ajudaram a recuperar das mazelas nas pernas e costelas e que mais tarde tanto o haviam de ajudar no alívio do seu reumatismo.

 

Regressado a Paris, carregado de novos perfumes e flores que descobrira nos Pirinéus, Constantino lança-se de novo na profissão pois as encomendas das casas reais, nobres, e burgueses ricos e poderosos não paravam, todos disputavam as flores de Mestre Constantin.

Como o negócio não parasse sentiu necessidade de arranjar outras instalações pois as da Rua de St. Agustin já se mostravam reduzidas para albergar os 40 trabalhadores.

E é assim que por volta de 1846 se instala no 1º e 2º andares do n.º 7 da Rua D’Antin, nas proximidades da Ópera de Paris, por onde passava a melhor clientela da cidade.

Pela primeira vez sentiu Constantino o que era ter uma casa/habitação próprias pois, vivendo no amplo 2º andar, sentia o prazer de descer ao primeiro, de receber os prestigiados clientes no salão que a oficina dispunha e de ver todos os seus empregados a cumprir as ordens que lhes dava e sobretudo de ver o seu projecto empresarial e artístico realizado.

Este gozo, porém, havia de durar pouco pois, com a revolução de 1848, Paris tornou-se uma cidade de grandes dificuldades e miséria e durante dois anos foi esperar melhores dias sem que, contudo, tivesse de despedir os seus empregados que, por causa das barricadas e fome, na sua própria Casa e loja os alojou.

E só a abnegação de Constantino salvaram a sua empresa pois, não obstante Paris não lhe proporcionar negócios, a sua fama pelas casas reais da Bélgica, Alemanha e outras era grande e com elas conseguiu muitos negócios e recuperar o movimento comercial antigo.

Em 1850, serenada a Revolução e implantada a República, já o rei dos Floristas gozava de novo as delícias do negócio e é, então que, para calar a mágoa da saudade e aquela velha angustia que lhe rasgava o peito decide vir a Portugal.

Anunciadas e distribuídas as ordens sobre o giro da casa, Constantino dá ordens ao Sr. Lequerel para anunciar a viagem aos clientes e divulgar o facto nos jornais de Paris e Lisboa.

E é assim que Lisboa recebe o Rei dos Floristas.

 

 (*)Clique aqui para ler a 2ª parte deste artigo


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