Notícias de Trás-os-Montes e Alto Douro

Orgão da Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro de Lisboa

Archive for Setembro, 2008

Trindade Coelho

Posted by ntmad em 29 09 2008

Uma Vida Exemplar, uma Obra Multifacetada

Nascido em Mogadouro em 18 de Junho de 1861, Trindade Coelho partiu cedo, por desejo próprio, a 9 de Junho de 1908.

Evoca-se, pois, este ano de 2008, o centenário da sua morte em que a convergência de várias Instituições será enriquecida para essa evocação.

Desde já várias autarquias: Mogadouro onde nasceu, a povoação de Travanca, então a 15 Km da sua terra natal, onde fez os estudos primários frequentando a escola régia dessa localidade com seu irmão, vivendo ambos em casa do professor, com fama de leccionar muito bem.

Por este facto foi afastado prematuramente da família, de que o seu temperamento sensível se ressentiu sempre, particularmente sentidas as saudades de sua mãe cuja morte decorreu durante essa estadia.

Porto e Coimbra foram cidades onde Trindade Coelho fez respectivamente os estudos secundários e o Curso de Direito. Como magistrado iniciou carreira no Sabugal. Em Portalegre exerceu a sua actividade durante quatro anos onde o jovem magistrado transmontano manteve a sua integridade, perante o caciquismo que tentava muitas vezes atar as mãos à justiça. Após transferência para Ovar, por período breve, foi finalmente colocado em Lisboa, último local da sua carreira numa fase política bastante acidentada em Portugal, na sequência do Ultimato Inglês. E ainda em Lisboa, viu-se temporariamente sem ocupação e numa situação angustiante, dado a extinção do tribunal onde realizava a ingrata tarefa de fiscalizar a imprensa de Lisboa. Foi posteriormente nomeado para Sintra, em 1895, num tribunal exclusivamente fiscal.

Em quatro campos distintos se situou a actividade de Trindade Coelho como escritor: o jornalismo, as obras de carácter jurídico, as de intervenção cívica e as de carácter propriamente literário.

Do seu livro “Os Meus Amores” (Contos e baladas) pareceu-nos interessante e oportuno, dado a abertura do ano escolar, transcrever o início do conto ” Para a Escola“, que certamente estará na lembrança de muitos leitores.

Este conto “Para a Escola” foi escrito por Trindade Coelho em Coimbra, no dia da sua formatura e termina esse conto evocando a sua dedicada ama Helena:

“…Helena, minha boa amiga! Acabo de chegar ao fim da viagem que principiei esse dia. Não volto mais à Escola! Venho hoje restituir-te, querida amiga, aquele beijo, dulcíssimo beijo aquele! – que tu então me deste.”

Maria Virgínia Rodrigues

PARA A ESCOLA

No velho casarão do convento é que era a aula. Aula de pri­meiras letras. A porta lá estava, com fortes pinceladas vermelhas, ao cimo da grande escadaria de pedra, tão suave que era um regalo subi-la. Obra de frades, os senhores calculam.,. Já tinha principia­do a aula quando a Helena entrou comigo pela mão. Fez-se um si­lêncio nas bancadas, onde os rapazes mastigavam as suas lições e a sua tabuada, num ritmo cadenciado e monótono, cantarolando. E ouviu-se então a voz da Helena dizer para o Sr. Professor, um de óculos e cara rapada, falripas brancas por baixo do lenço verme­lho, atado em nó sobre a testa:

– Muito bons dias. Lá de casa mandam dizer que aqui está a encomendinha.

Oh! Oh! A encomendinha era eu, que ia pela primeira vez à es­cola. Ali estava a encomendinha!

– Está bem, que fica entregue. E lá em casa como vão?

E, enquanto o velho professor me tomava sobre os joelhos, a Helena enfiava-me no braço o cordão da saquinha vermelha, com borlas, onde ia metido nem eu sabia o quê. Meu pai é que lá sabia… E ali estava eu entre os joelhos do Sr. Professor, com o boné numa das mãos e a saquinha vermelha na outra, muito com­prometido. A Helena, que sorria contrafeita, baixou-se para me dar um beijo e disse-me adeus.

Choraminguei, quis sair na companhia dela.

– Não, agora o menino fica – disse-me a Helena. – Isto aqui é uma escola onde se aprende a ler. – E agachando-se, diante de mim: – Olhe tanto menino, vê?

                           (Do livro os” Meus Amores” de Trindade Coelho).

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Convívio transmontano no Cristo Rei

Posted by ntmad em 28 09 2008

Os antigos alunos do Seminário de Vila Real residentes na área metropolitana de Lisboa, como vem sendo costume há vários anos, reuniram em convívio, no primeiro sábado de Julho, dia 5. Este ano foi no santuário do Cristo Rei, em Almada.

Dispersos por locais diversos da metrópole lisboeta no exercício de profissões consideradas superiores, estes transmontanos naturais dos vários concelhos do distrito vilarrealense sentem a necessidade e gozam a alegria de recordarem e reviverem os anos de familiar convivência que passaram estudando no Seminário. Muitos destes conterrâneos juntam à sua naturalidade transmontana o traço identitário da ligação à nossa CTMAD.

Após a concentração, houve a celebração da eucaristia presidida pelo Senhor Bispo de Setúbal, ele próprio um transmontano de Vila Pouca de Aguiar e almoço no refeitório do Santuário. O Dr. Altino Cardoso apresentou um historial multimédia do Seminário muito apreciado e intensamente convivido. Para fecho subiu-se ao alto do monumento e, sob a protecção redentora dos amplos braços do Cristo Rei, puderam contemplar a beleza comovente da cidade de Lisboa espraiada à luz brilhante do sol tardio. Um belo dia.

O próximo encontro é em 2009, no Seminário de Almada, no primeiro sábado de Julho.

 

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Editorial – A NOSSA CASA ESTÁ VIVA E RECOMENDA-SE

Posted by ntmad em 27 09 2008

Decorreram apenas 6 meses sobre a tomada de posse dos actuais órgãos dirigentes da CTMAD e muito já se fez para dinamizar a vida da nossa colectividade. No campo cultural, foi lançado um livro no Teatro Nacional Dª Maria II, um outro no Palácio Nacional da Ajuda e mais dois na nossa Sede. Foi realizada uma sessão sobre a cultura transmontana e alto-duriense na Feira do Livro e uma exposição de pintura sobre motivos da nossa região. O nosso Grupo de Teatro actuou com muito brilho no Auditório Carlos Paredes da Junta de Freguesia de Benfica e o nosso Grupo Coral não lhe ficou atrás ao presentear-nos com uma excelente actuação na sessão de lançamento do livro de Bento da Cruz no Teatro Nacional.

Organizámos e realizámos a maior viagem turístico-cultural para associados e seus familiares e amigos dos últimos anos: quatro dias de visita ao Norte de Portugal e Galiza.

Realizámos a Festa do Folar e do Azeite com grande participação de associados, amigos e expositores e muita animação além das jornadas gastronómicos comemorativas de efemérides importantes ou de simples convívio entre associados.

A Casa foi convidada e fez-se representar em acontecimentos tão díspares como sejam a inauguração de uma exposição do nosso associado Nadir Afonso e a Conferência sobre Geminação e Cooperação ambas levadas a cabo pelo município de Odivelas, o lançamento do livro do nosso associado general Loureiro dos Santos no Instituto de Altos Estudos Militares, o 85º aniversário da Casa do Alentejo, a reunião na Câmara de Mogadouro a propósito do centenário do falecimento de Trindade Coelho, a inauguração do Centro de Arte Contemporânea Graça Morais em Bragança, o lançamento do livro Einstein/Nadir no Grémio Literário, o Encontro das Casas Regionais, o debate sobre a Linha do Tua na Casa dos Trasmontanos do Porto. Outros houve em que por manifesta falta de disponibilidade, os seus directores não puderam estar presentes. Também neste aspecto se fazem sentir os efeitos nefastos do não funcionamento do Conselho Regional, cujos elementos poderiam, legitimamente e com toda a dignidade, representar a nossa Casa.

Colaborámos na programação das actividades de evocação dos 100 anos da morte de Trindade Coelho, escritor nacional de primeira grandeza nascido em Mogadouro e fundador da nossa CASA. Para tal estabelecemos um protocolo com a autarquia de Mogadouro e contactos com a Hemeroteca Municipal de Lisboa. Prestámos o devido e activo apoio a 3 iniciativas a favor da preservação do ambiente e do património cultural, turístico e etnográfico da nossa região. Por fim, mas não por último, prosseguimos na luta pelo direito a ter uma nova Sede mais digna da nossa grandeza. Independentemente da consciência do dever cumprido, também estamos conscientes de que nem tudo decorreu como prevíamos. Acreditávamos ser mais fácil encontrar alguém disposto a explorar o espaço de convívio da Sede de uma forma consensualmente boa para os associados e pôr o Conselho Regional a funcionar e a cumprir o seu importante papel. Mas, infelizmente, tais desideratos não dependem apenas da nossa vontade…

Vamos no final deste mês comemorar mais um aniversário no Colégio dos Salesianos de Lisboa – Oficinas de São José, cujas instalações foram gentilmente colocadas à nossa disposição pela sua Direcção, gesto nobre que desde já agradeço aos responsáveis pelo Colégio em nome de todos os Colegas da direcção. Aqui deixo o apelo a uma ampla participação dos nossos associados para que a cerimónia tenha a grandeza que a nossa CASA e os que no seu devir mais colaboram bem merecem.

Termino aqui este editorial, pois quero libertar espaço para tantos e tão importantes textos a serem incorporados neste jornal que, como todos vêem, tem um novo design gráfico que espero seja do agrado da grande maioria dos nossos leitores. Estamos abertos a críticas e sugestões.

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A CTMAD também é teatro

Posted by ntmad em 25 09 2008

por Serafim Falcão

Vamos escrever à transmontana: como “filhos do granito, nosso pai e da terra  nossa mãe”, como ” irmãos do sol e do vento”. Com a robustez  e frondosidade do castanheiro, a aspereza do seu ouriço fechado, mas também com a sua generosidade  e abertura; com a rigidez granítica da cepa da urze e da torga que, outrora, na frágua, amaciava e temperava o ferro; com a frontalidade das altas montanhas, que nos tornam ágeis e enérgicos e cujas vertentes, aparentemente, desenhadas no rosto,  desaparecem, ao primeiro impacto humano.

A CTMAD não é só sardinha assada, magusto e fumeiro, Douro, Porca de Murça e Valpaços, elementos que fazem parte dos nossos genes. É também, e felizmente com frequência, exaltação dos nossos valores,  exaltação e elogio das nossas personalidades e gentes, o dar conhecimento dos nossos e não só nossos escritores, bem como a divulgação das suas obras, cuja casa  se tem mostrado pequena para a assídua e viva assistência.

É também, ultimamente, esforço e objectivo da nova Direcção ” reactivar o mais possível o Conselho Regional.”

Todavia, ainda não é Teatro, embora exista o Grupo de Teatro, há três anos, ressuscitado, animado e levado a palco, pelo nosso sócio Fernando Marinho. Fez a sua apresentação e divulgação na Junta de Freguesia de S.João de Brito com  poesia e leitura de extractos da peça, em três  actos, “Casa de Pais”de Francisco Ventura que, depois, levou a Palco, durante três dias, no Auditório Carlos Paredes da Junta de Freguesia de Benfica e  um dia, no Salão dos Bombeiros Voluntários de Queluz. Os Cenários foram pintados por um casal, actores, que nem transmontanos são, e transportados, montados e  desmontados com a ajuda do próprio Grupo. Acontecendo o mesmo, na recente apresentação, durante dois dias, no mesmo Auditório, das Peças ” O Doido e a Morte” de Raul Brandão e “Uma Anedota” de Marcelino Mesquita.

Se agradecemos a presença simpática e estimulante de alguns elementos da Direcção bem como de poucos sócios, lamentamos a ausência dos outros, apesar de, ao contrário das outras  representações, haver abundante publicidade, inúmeros panfletos, no nosso Jornal, na Agenda Cultural da Cidade, na Internete. –  As Festas da Cidade…..  – E o que é nosso, não conta?

Alguém disse que “o Teatro não dá dinheiro”. E eu escrevi: “Quem assim fala não é transmontano”. Será que é?

Espero que as minha linhas  talvez azedas como os azedões e as acelgas, acres como as arrabaças, sejam recebidas com o aconchego, a humildade verdejante e fresca da meruja, quatro elementos da Nossa Terra, a que eu chamo  acepipes, manjares  ou mesmo  especiarias frescas da mesa transmontana que ainda falta desenvolver e divulgar. Transmontanos e respectivos amigos, venham ao TEATRO.

(Veja notícias do Grupo de Teatro da CTMAD aqui. )

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Grupo Coral

Posted by ntmad em 25 09 2008

por Maria Helena Moutinho

Nascemos em Junho 2007 quando a pianista Patrícia Gavinhas visitou a Escola de Leitura e Escritq que funciona, às segundas-feiras, na Associação Portuguesa de Escritores.

A sua presença despertou, nos membros daquela Escola, a enorme vontade de formarum grupo com o único objectivo de cantar.

O sonho ganhou forma. Tínhamos grupo, Directora Musical e muita força de vontade. Faltava apenas o espaço para albergar o projecto.

É então que aparece a Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro que nos facultou, gratuitamente, o espaço para os ensaios. Como contrapartida, damos a nossa disponibilidade sempre que a CTMAD nos solicitar. Reiniciaremos os nossos ensaios a partir do próximo dia 7 de Setembro, sempre às sextas-feiras, pelas 21 horas.

O grupo é constituído por cerca de 15 elementos de diferentes experiências em termos musicais e os géneros escolhidos pela nossa Directora têm revelado essa mesma diversidade. De momento, damos relevo à música popular, embora tentemos fazer algumas incursões por outros géneros musicais.

Deixamos aqui um convite para todos aqueles que nos queiram acompanhar nesta caminhada coralista.

 

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Coincidências e lembranças

Posted by ntmad em 25 09 2008

É como a história da existência das bruxas…, que eu nunca encontrei, mas de que muitos confirmam a sua presença.

Normalmente as histórias das bruxas têm que ver com actos, ou sequência de Vida, pouco animadores. Desastres acontecidos. Infelicidades e amores contrariados. O nosso fado!

As minhas histórias são mais animadoras e geralmente associadas aos prazeres da mesa. Das bruxas colecciono algumas receitas de culinária, e a famosa receita da “Queimada das Bruxas” que, de certo, já aqueceu muitos transmontanos em noites frias.

Da mesma forma que me afirmo agnóstico, também não acredito nas bruxas, figuras do imaginário quantas vezes inventadas para desculpar, ou culpar, comportamentos.

As coincidências quando são boas admitem-se como associadas à sorte, mas pela negativa quantas vezes se invocam as bruxas ou os maus-olhados, e outros, com resignação, simplesmente aceitam o destino! E quantas vezes, na história, se condenaram as bruxas por interesses variados? Agora que parece já não haver esses perigos, habituemo-nos a olhar as bruxas com ternura, e guardemos delas os elementos positivos que nos deixaram, como as receitas de cozinha. Sobre as quais escreverei noutra oportunidade.

Este palavreado, à laia de intróito, para no final da crónica ilustrar o texto com duas coincidências.

Nasci, e fui educado em Bragança até ser adulto. Poucas vezes venho à terra. O facto de passar longos períodos de ausência, quando regresso, sinto sempre com maior facilidade, as diferenças urbanas.

Ainda está na memória de todos a quase revolução popular, e de má hospitalidade, aquando da inauguração do Museu Abade de Baçal, depois de profundas obras de remodelação que transformaram o Museu num espaço de nova dinâmica museológica, quer dizer, um Museu contemporâneo. Não digo moderno pelas más interpretações que são atribuídas a este termo. Como bragançano não entendia os comentários, e acções, que naquele tempo se fizeram contra o Museu e especialmente contra a Presidente do Instituto Português de Museus, Simonetta Luz Afonso. E sobretudo pela forma agressiva como foi recebida na “minha” cidade, quase sendo obrigada a fugir.

Mal tive oportunidade de vir a Bragança, fui imediatamente visitar o Museu. Já tinha uma ligeira opinião pois tinha visto os projectos de remodelação, em planta, em Lisboa.

Surpresa! Finalmente uma obra em Bragança, ligada à cultura, com um modelo, e estética, associado aos novos métodos de apresentação museológica, exaltando as peças mais nobres e permitindo a rotação das peças em reservas, deixando de ser um Museu estático para adquirir, pela instalação, uma postura dinâmica. Gostei muito. Claro que a primeira coisa que fiz foi parabenizar a minha amiga Simonetta, pessoa que aprendi a respeitar ao longo da minha vida profissional e que permitiu estarmos ligados a grandes projectos de gastronomia. O primeiro foi a grande exposição da Vida em Portugal no “Século XVIII”, no Palácio de Queluz em 1987. Foi possivelmente esta minha participação que me obrigou, e depois fascinou, ao estudo da alimentação em Portugal. O segundo grande projecto foi a Europália, em Bruxelas em 1991. Portugal foi o primeiro país a apresentar a gastronomia como património cultural, com manifestações múltiplas em três cidades. O terceiro grande projecto foi a instalação da gastronomia portuguesa no Pavilhão de Portugal na EXPO 98, com várias frente servindo em diversas oportunidades e espaços, mas sempre a cozinha regional portuguesa. Uma grande mulher com quem tive o prazer, e a honra, de trabalhar associado a programas e que foi responsável pela obra de maior modernidade que se tinha feito em Bragança. A propósito do Museu Abade de Baçal, e de comida, quero lembrar três obras de pintura que figuram na exposição permanente: “Cozinha Transmontana” de Berta Nery Durão Ferreira, “Os Petiscos de Bragança” tríptico de Henrique Tavares e uma encantadora “Natureza Morta – Cebolas” de Silva Porto.

Naquele tempo dizia eu que as obras mais importantes de Bragança eram o Museu e a ampliação da Pousada de S. Bartolomeu. Tendo esta sido encerrada para obras durante um longo período, e as suas obras de arte dispersas por outras pousadas, empenhei-me pessoalmente, tendo que lutar contra certas oposições dentro da empresa, para que a maior parte dos seus elementos decorativos regressassem, designadamente: “Cena do Mercado”, “Mulher e Criança” e “Taça com Frutos” de Júlio Resende e ainda “Natureza Morta” de Jorge Pinheiro. Regressaram todas as peças, e com o ritmo de garantir a ligação ao local, ainda adquirimos a tapeçaria “A Menina e o Anjo” de Graça Morais, pois parecia-me despropositado a Pousada de S. Bartolomeu não ter uma obra da sua artista plástica que mais pinta e desenha a sua terra e as artífices anónimas que cultivam a Natureza. As minhas ligações gastronómicas a Graça Morais são longas e variadas. Possivelmente recordam ainda a crónica, que aqui escrevi, sobre a função dos alimentos na pintura e como ela se reflecte na pintura de Graça Morais. Recentemente Bragança teve a oportunidade de lhe dedicar um espaço “Centro de Arte Contemporânea Graça Morais”, na zona nobre da cidade e que, de certo, vai ajudar a dinamizar a Baixa tão pouco frequentada. Curioso reparar que na cafetaria do Centro são apresentadas como sugestões doces de castanhas, de alto gabarito.

Quero ainda referir outra mulher que me liga a Bragança e aos movimentos gastronómicos: Rosalia Vargas. Enquanto responsável nacional do programa Ciência Viva, criou um sector “A Cozinha é um Laboratório”, com grande sucesso e do qual sou admirador e frequentador. A partir de pequenas demonstrações, e de coisas simples como estrelar um ovo ou entender o crescimento do pão pelo fermento, muitas crianças aprendem a gostar de física e outras matérias, e a levar a curiosidade para as salas de aula. Essa curiosidade é muitas vezes o motor para aumentar o nível qualitativo das escolas. Temos um projecto em conjunto que ambos esperamos concretizar brevemente. A gastronomia passou já a ocupar cinquenta por cento do tempo das nossas conversas.

Nenhuma destas três mulheres tem a ver com as bruxas  que citei no início do texto.

A primeira palavra que utilizei em título foi coincidências. Importa agora escrever sobre elas, ou simplesmente citá-las.

A primeira foi a inauguração em Bragança do pólo da Ciência Viva no dia 30 de Junho de 2007. A segunda foi a inauguração do Centro de Arte Contemporânea Graça Morais no dia 30 de Junho de 2008. Duas grandes inaugurações na minha terra no mesmo dia e mês, e anos consecutivos! Costuma-se dizer que não há duas sem três…! E duas inaugurações de duas amigas minhas com as quais também consolido a Amizade pelos temas permanentes da comida. Não vou dizer que foram elas que escolheram as datas. Ironias de conveniências políticas…? Sim, que tiveram honras de Governo.

Se tivessem sido desgraças alguém teria já invocado um bruxedo, ou maldição de alguma bruxa. Como foram coisas boas, esquecem-se as contra-bruxas. Não são as fadas, essas não passam das histórias infantis. São as bruxas boas, que quiseram brincar comigo fazendo inaugurações em Bragança, duas consecutivas, no dia do meu aniversário, e darem-me o pretexto de vos dirigir estas palavras, de fim de Verão.

BOM APETITE para os espaços de Bragança que referi.

 

© Virgílio Gomes

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ARES DA SERRA

Posted by ntmad em 24 09 2008

II – POTRIQUEIROS

por António Augusto Fernandes

Conversava-se ao desenfado sobre política e políticos no meio daquela gente tranquila das serras do norte. Aproveitando uma pausa nos prolóquios, uma mulherzinha miúda, de atentos olhos de azeviche, envolta nos trapos negros de quem já muito aturara à vida em fomes e pesares, sai-se de lá com a exclamação desenganada: São uns potriqueiros! E a palavra saltou-me, inteira na sua risonha complacência, dos escaninhos das memórias da infância, onde adormecera há que vidas.

Onde iam eles, os potriqueiros!

Nos tempos esganados que se seguiram à Segunda Grande Guerra, não era fácil para um pobre acudir todos os dias aos ladridos da barriga atormentada pela fome e havia que recorrer a almudes de criatividade para rapar o magro pão de cada dia, dia sim dia não. Dentre esses imaginativos salientavam-se os potriqueiros. Potriqueiros lhes chamava o povo do norte, fazendo uso de uma simpática corruptela de pelotiqueiros, significando uma espécie de artistas mais ou menos circenses que faziam jogos malabares com pequenas pelas, cujo diminutivo seria pelotas.

O povo até que gostava deles, dos potriqueiros, seus irmãos na miséria e descendentes de uma longa linhagem de artistas saídos do povo, cujos ascendentes mais remotos se situavam entre aqueles velhos jograis que, no tempo dos afonsinos, percorriam feiras e vilares com seus momos e mistérios, seus cantares e poemas, numa Idade Média que, nas serras do interior, teimou em prolongar-se pelo século XX, tanto no imaginário religioso e profano, como na maneira de lidar com a terra. Com o tempo a palavra foi alargando a sua dimensão semântica e passou a significar também aqueles que mostram capacidade de sobreviver à custa de simpáticas artes e manhas de carácter mais ou menos histriónico.

Esses potriqueiros arribavam à aldeia pelo Outono, quando partiam as andorinhas e o lavrador dava por findas as canseiras das malhas, da arranca das batatas, pois que os ouriços dos castanheiros, ainda não tinham começado de arreganhar. Pelas encostas da serra, acobreavam as ramagens de touças e soutos e as primeiras névoas prenunciavam o repouso da madre natureza exausta da parturição dos seus frutos. Era um tempo de pausa em que as tulhas cheias deixavam o lavrador mais propenso a largar uma malga de grão de centeio ou meia dúzia de batatas nos alforges destes histriões errantes, em troca de uns malabarismos, duas anedotas brejeiras e alguns truques de ilusionismo que lhe fizessem esquecer as canseiras de todo um ano a lutar com uma terra áspera e avara em mimos. Surdiam imprevistamente, não se sabe donde, com suas azémolas tropiqueiras ajoujadas debaixo dos magros trastes da cozinha de campanha, das vestimentas com que encenavam as suas pantominas e, às vezes, o luxo de um velho animatógrafo asmático cujas fitas enguiçavam a cada cinco minutos.

A moçoila mais vistosa da tropa fandanga, de perna ao léu e faces avivadas a lápis lazúli e vermelhão, mais o moço do cornetim, davam volta ao povoado, alagando de alacridade as ruelas bisonhas da aldeia granítica com o seu colorido e as suas notas vibrantes do velho chanfalho e arrastando atrás de si a horda grulhenta do garotio. E um frémito de charme exótico sacudia as grossas gentes serranas.

À noite, no largo da aldeia, com o sobrado de dois carros de bois desembaraçados das engarelas, postos os pinalhos na horizontal, faziam palco para exibição das suas pantominices, ou, se o tempo não estava para folestrias, em palheiro mais amplo lastrado de palha nova, pedido de empréstimo a lavrador mais galhofeiro. E o pessoal acorria a esse Tivoli improvisado, mais basto que pardais a uma eira depois das malhas. Compenetradamente, os artistas tentavam compensar o seu público dos magros tostões desembolsados entregando-se com denodo aos seus jogos de prestidigitação, à declamação histriónica de estrofes mais ou menos fesceninas e à encenação rudimentar de farsas ligeiras herdadas e estropiadas desde os tempos de Gil Vicente.

Desapareceram os potriqueiros. Desapareceram levados pela correnteza do imparável tempo que tudo consigo arrebata. E, com eles varreu-se a palavra mágica, potriqueiros, que nem sequer o Houaïss nem o Dicionário da Academia registam.

(a publicar também no blog de Rebordaínhos)

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A Galiza aqui tão perto

Posted by ntmad em 24 09 2008

por António Chaves

Há uma diminuição da procura de trabalhadores portugueses nas regiões fronteiriças, a par de uma queda  da exportação de produtos portugueses para Espanha, que, em Março  registou uma diminuição mensal de 7%. Os sectores mais sensíveis são os têxteis, vestuário e calçado que colocam neste mercado um quarto das suas exportações.

Naturalmente, a Trás-os-Montes interessa-lhe acompanhar, em particular o comportamento da construção civil na Galiza e em toda a Espanha, uma vez que é este sector que mais pode afectar as famílias locais com elementos a trabalhar nesse sector, que além de ser o mais afectado, representa para Espanha 10% do Produto Interno Bruto.

A criação de postos de trabalho tem como primazia a dinâmica empresarial e é no tecido industrial galego / Espanhol que se tem conseguido nos últimos tempos um número significativo de novos empregos, e onde, a médio prazo a nossa região vai colher a experiencia e o contacto com uma realidade que privilegia a inovação, a cultura do risco, o empreendorismo e criação de novos projectos como base do desenvolvimento e da sustentabilidade.

As taxas de juro, petróleo e bolsas internacionais estão a afectar as economias europeias e ainda de forma mais marcada a economia portuguesa, onde persiste uma situação de desemprego estrutural. Independentemente da conjuntura desfavorável há que ter em conta que a Galiza representa o sexto principal destino das exportações portuguesas, um mercado potencial de cerca de três milhões de consumidores, com preços dos produtos de consumo semelhantes aos praticados em Portugal e onde o salário mínimo é mais do dobro do que o do lado de cá. Existe aqui uma janela de oportunidade não só a nível de emprego e colocação de produtos vendáveis, mas também a possibilidade de contactar uma cultura organizacional mais consistente, um laboratório de projectos e experiencia no domínio da gestão que podem vir a beneficiar Trás-os-Montes se se revelar capaz de conceber e concretizar uma estratégia regional inteligente. Não é demais recordar que o equilíbrio das contas publicas, conseguido em parte à custa da redução das remunerações reais, do crescimento económico e do sacrifício das classes médias, acompanhado de uma terceirização da sociedade portuguesa está a expor crescentemente a vulnerabilidade das pessoas, mesmo perante pequenas flutuações do rendimento monetário.

Dado que os sérios problemas da economia nacional estão a absorver as energias do governo, estamos, diria, a retornar ao tempo do reinado de D. Manuel, quando reconheceu que não era capaz de abastecer os povos da raia em sachos, relhas e outros materiais de ferro, panos, etc., permitindo o abastecimento em Espanha como se a fronteira não existisse.

A fronteira já não é o que era então e a oferta de trabalho, os mercados, os centros tecnológicos, a Europa das regiões e os valores da cidadania constituem um novo paradigma para o convívio enriquecedor entre os povos raianos, numa comunhão de afectos e propósitos

 Idênticos aos partilhados, em harmonia, entre o séc. v e o séc. XI.

É a voz de Miguel Torga que nos evoca, ainda, este elo meio desfeito com a terra e com a vida, entre povos irmãos:

                              

Desta terra sou feito.

Fragas são os meus ossos.

Húmus a minha carne.

Tenho rugas na alma

E correm-me nas veias

Rios impetuosos.

Dou poemas agrestes,

E fico também longe

No mapa da nação.

Longe e fora de mão…*

____________________________________
*Miguel Torga; Identificação; in: Poesia Completa; Publicações D. Quixote; Lisboa; 2000

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Comemorações do 103º aniversário da CTMAD

Posted by ntmad em 21 09 2008

AGRACIAMENTO AOS ASSOCIADOS MAIS ANTIGOS

Dentro das nossas limitadas possibilidades vamos, uma vez mais, no âmbito das comemorações do 103º Aniversário, honrar os nossos associados mais antigos.

É um gesto de gratidão para com todos aqueles que souberam, através de anos e anos de constante dedicação, dignificar a CTMAD, servindo de exemplo e constância às gerações vindouras, contribuindo, de tal modo, para a sustentação da nossa centenária associação regionalista.

Este ano congratulamo-nos com o agraciamento de um associado que perfaz 50 anos de inscrição e de um vasto conjunto de outros associados que atingiram 27, 26 e 25 anos de associativismo, dando assim corpo ao projecto delineado nas festas do nosso centenário de, anualmente, darmos relevo a todos aqueles que, como comummente se diz, atingiram, respectivamente, as devidas insígnias de ouro e de prata.

Eis, pois, a lista dos sócios a agraciar:

A) Sócios que, no período de 23SET07 a 23SET08, completaram 50 anos de associado:

 

N.º  DE SÓCIO

NOME

516

Delfim Fernandes, Dr.

 

B) Sócios que, no período de 23SET07 a 23SET08, completaram 27 anos de associado:

 

N.º  DE SÓCIO

NOME

1081

Adriano José Alves Moreira, Prof. Univ.

1084

António Morais Duarte

1088

José Policarpo Gomes

1095

Mário de Oliveira Beça Quintão

1133

José Fernandes do Cabo

1134

Dionides Fernandes Carneiro

1012

José Ferreira

2028

Manuel António Araújo dos Santos, Dr.

1129

Fernando Monteiro do Amaral, Dr.

1131

António Augusto Garcia Rodrigues

1122

Manuel António dos Santos; Dr.

C) Sócios que, no período de 23SET07 a 23SET08, completaram 26 anos de associado:

 

N.º  DE SÓCIO

NOME

1244

Manuel Joaquim Pinto

1256

Armando Jorge Baptista Silva, Dr.

1292

Manuel Joaquim Rodrigues, Dr.

1269

António Francisco Figueira

1298

Jorge Manuel Barreira

1296

Luís Campos de Azevedo, Cmdt.

1270

José Serafim Alves de Sousa, Dr.

1297

José Adelino Novo P. Meneses, Dr.

1304

João Granja da Fonseca, Dr.

1301

Armindo Lopes de Oliveira

1308

Fernando Leite

1324

Henrique M. de Sousa Magalhães

1334

Agostinho Teixeira Pedro

1361

Carlos Fernando Miranda

1366

António T. P. A. Guimarães Serôdio, Dr.

1382

Vítor Manuel Ruivo, Dr.

1381

Marcelo J. de Sousa Brandão, Dr.

1370

Álvaro M. O. M. de Assunção , Eng.º

1385

João Elias Vaz Pereira Carneiro, Eng.º

 

D) Sócios que, no período de 23SET07 a 23SET08, completaram 25 anos de associado:

 

N.º  DE SÓCIO

NOME

1394

Miquelina da Graça Caldeira Bebiano, Dr.ª

1404

José A. Carmona Abreu Lopes, Prof. Dr.

1407

Manuel Adérito Pires, Dr.

1406

António Fernando Cardão Pito, Dr.

1455

Luís M. de O. de Miranda Pereira, Dr.

1466

Fernando Abreu de Carvalho Araújo, Dr.

1484

João M. T. M. d’ Abreu Sarmento, Eng.º

1494

Vítor Manuel Paulo Porto, Dr.

1495

Maria Nazaré Pires

1506

Abel J. Almeida Santos Queiroz

1508

António Santos Ferreira Queiroz

 

Lisboa, 30 de Julho de 2008

(António Cepeda)

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Romance “Mulher Desaparecida a Sul” lançado a 5 de Junho na CTMAD

Posted by ntmad em 20 09 2008

por Virgínia Rodrigues

O lançamento de um novo romance de Modesto Navarro na CTMAD é sempre um acontecimento cultural de grandes expectativas, reunindo habitualmente um número elevado dos seus leitores.

Nossos associados ou não, todos eles, nesse dia, estavam  interessados na nova obra do escritor, mas também na sábia apresentação da mesma para melhor  fruir a posterior leitura.

O Escritor Domingos Lobo iniciou a apresentação da obra envolvendo-nos primeiro em profundas análises de âmbito mais global, com referentes históricos, criativos e memoriais da nossa identidade como povo criador, povo livre no confronto com outras culturas. E no imperativo de amar, proteger e promover a nossa cultura não a deixando estiolar ou abastardar. Evocou Almeida Garrett que, em séculos anteriores, escrevera: “Um povo que não ama, não protege ou não promove a sua Literatura ( ou a Música, a Pintura, a Dança, o Património, a História ) se não está morto, está, certamente moribundo”.

Só então Domingos Lobo nos vem  particularizar , direi  mesmo dissecar o romance apresentado no momento , enquadrando-o tambem  na já vasta  obra  literária de Modesto Navarro e no ollhar crítico deste nosso conterrânio e no seu compromisso ao longo da vida como escritor e como pessoa face à realidade circundante. É  sublinhado que Modesto Navarro é escritor que conhece e saboreia as suas raizes, que engradece os seus passos como parte integrante do povo, que, caminhando, fez o caminho sem esquecer esses sinais e raizes , mas sem cerrar o olhar às sucessivas paisagens físicas e humanas do seu percurso a sul e direções outras.

Modesto Navarro distancia-se do regional sem  nunca o  esquecer ou negar e parte para o global sem nele  jamais se diluir.

À generosidade do apresentador da obra, escritor Domingo Lobo, agradeço sensibilizada a cedência de fotocópia da sua profunda e vasta comunicação que me permitiu colher imagens, palavras e citações, que espero não ter traído o sentido, para elaborar este artigo. Permitiu-me  também  uma segunda leitura mais atenta a “Mulher Desaparecida  a Sul”, o novo romance de Modesto Navarro.

Termino citando Domingos Lobo no final da comunicação: “Mulher Desaparecida a Sul é , portando, uma novela vigorosa e sensível, abordando os nossos medos face a um mundo que desaba e do qual não sabemos prever o futuro que virá. A  vida e os seus inuméraveis segredos. Brilhante começo de uma nova colecção da Cosmos, que se assume como biblioteca onde os autores portugueses de referência poderão encontrar espaço para a publicação de textos que expressem as profundas inquietações deste nossso tempo”.

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